Rastros de Fé e Colonização no Coração de Alagoinhas

Por volta de 1850, Alagoinhas ainda era um pequeno vilarejo, conhecido sobretudo por suas boas águas que atraíam caixeiros-viajantes da época, que ali faziam paradas para descanso, trocas comerciais e reabastecimento do corpo e da alma. A água, generosa, era convite à permanência.
Nesse período, a colonização portuguesa já se fazia intensa. A catequese jesuíta avançava sobre os povos indígenas que ainda resistiam na região, ao mesmo tempo em que os africanos escravizados eram a base do trabalho nas fazendas e moradias locais. Fé imposta, dores e culturas silenciadas iam moldando a história do novo território.


Como em quase todos os espaços marcados pela colonização europeia, um dos principais símbolos desse domínio era o Cruzeiro ,grandes cruzes de madeira fincadas no centro das aldeias, vilas e cidades, erguidas como marcos do povoamento europeu e da presença católica. Mais que objetos religiosos, eram sinais de poder, ocupação e controle simbólico do espaço.


Em nosso município, no passado, existiram alguns cruzeiros de grande relevância histórica. Um dos mais conhecidos foi o da *Praça do Cruzeiro, erguido por volta de 1869. Com o passar do tempo, o local passou a se chamar Praça da República e, hoje, é conhecido como Praça Ruy Barbosa, no coração de Alagoinhas.


Outro cruzeiro envolto em mistério é o chamado *Cruzeiro do Deserto, cuja localização até hoje é uma incógnita. O pesquisador Américo Barreira, em seu livro “Alagoinhas e seu Município”, nos apresenta uma narrativa carregada de simbolismo e fé popular. Conta-se que, naquele lugar, um escravizado, vítima de constantes maus-tratos, chegou exausto aos pés de um grande cruzeiro. Ali, ajoelhou-se e rogou aos céus, com profunda devoção, para que seu senhor abrandasse o coração e cessasse as judiarias.


Dias depois ,não se sabe se pelo peso da idade, pela ação do tempo ou por força de um milagre , o rigoroso fazendeiro concedeu ao homem sua carta de alforria, libertando-o da escravidão. A partir de então, o local passou a ser considerado sagrado, um espaço de graças alcançadas, atraindo constantes visitas e promessas. Contudo, o tempo tratou de esconder seus rastros, e até hoje não se sabe ao certo onde ficava esse lugar de esperança.
Atualmente, ainda existem alguns desses monumentos espalhados por Alagoinhas, como na Rua 15 de Novembro e no bairro de Santo Antônio. Porém, já não carregam a mesma conotação fervorosa de fé e História. Permanecem de pé como testemunhas silenciosas do passado, lembrando que a cidade foi construída entre crenças, dores, resistências e milagres reais ou simbólicos que o tempo não conseguiu apagar por completo .

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